


05 a 12/04/2008
Esboço da lição
I – Sua
preexistência
II – Seu testemunho e aparentes contradições
III – O testemunho de Seus discípulos (Novo Testamento)
Introdução
Jesus Cristo foi o único homem que em sã consciência arvorou ser o Filho de Deus! Certa vez, usei esse raciocínio numa palestra que dei numa universidade não-adventista quando discordava de outro renomado palestrante reconhecido por afirmar, entre outras coisas, que Jesus não ressuscitou, que não nasceu de uma virgem, nem voltará nas nuvens do céu.
O encontro visava estudar o chamado Jesus Histórico, por quem os participantes até nutriam certa simpatia, mas não como o Filho de Deus e sim como um judeu apocalíptico ou revolucionário que viveu no passado. Se Jesus não foi aquilo que Ele disse que seria, eu argumentei, Ele não deveria ser admirado, mas denunciado, combatido, desmentido. Afinal, muitas estruturas foram construídas em cima do que Ele falou. Eu posso admirar Sócrates, Platão, Agostinho ou qualquer outro pensador do passado e discordar dele, afinal, nenhum desses declarou ser de natureza e origem divinas. Mas com Jesus é diferente. Ele disse ser Deus! Como discordar de alguém com tal característica? Se Ele mentiu, conclui em minha palestra, deve ser combatido. Se falou a verdade, deve ser seguido. Realmente me surpreendeu a reação positiva de um público secularizado, que até então só ouvira questionamentos à realidade histórica dos Evangelhos e entendi que, haja o que houver, digam o que quiserem dizer, ainda persiste nas pessoas um vazio com forma de Deus. E Jesus Cristo foi o único capaz de preencher esse vazio quando, principalmente através da encarnação, deu um rosto e um formato a uma divindade que, em essência, estaria muito distante de nós!
I – Sua preexistência
A lição chama a atenção para três textos que merecem ser detalhadamente examinados. São eles Hebreus 1:1-4; Colossenses 1:15-20 e Miquéias 5:2.
O texto de Hebreus 1:1-4 deveria ser calmamente lido e comentado com os irmãos na classe. Ele traz excelentes revelações sobre a pessoa de Cristo, a começar do verso 1. Note que o texto inicia falando da ação de Deus em Se comunicar com os homens e de como Ele usou vários meios para isso. Curioso é notar que, no original grego, existe uma diferença textual não percebida na tradução e que diz algo muito importante sobre Jesus Cristo. Diz que Deus falou aos pais, pelos profetas; mas nestes últimos dias nos falou no Filho e não "pelo" Filho como sugere a tradução de Almeida. Por que essa diferença? Afinal "pelo Filho" soaria mais comum seguindo a linha de "pelos profetas" usada anteriormente. Aqui, ao que tudo indica, a intenção do autor foi propositadamente fazer uma distinção entre Cristo e os profetas. Ele não era apenas um homem inspirado por Deus, a exemplo de Moisés, Elias e Daniel. Ele era o próprio Deus falando aos homens! Os profetas pregavam revelações que recebiam de Deus. Cristo era a própria revelação de Deus! Era Deus em forma humana, a segunda pessoa representando toda a divindade.
O segundo texto, Colossenses 1:15-20, também é muito interessante. Ele espelha literalmente um desdobramento de Gênesis 1:1. Paulo descreve Cristo como:
· IMAGEM do Deus Invisível (v. 15)
· PRIMOGÊNITO de toda a Criação (v. 15)
· O ANTERIOR a todas as coisas (v. 17)
· A CABEÇA do corpo da Igreja (v.18)
· O PRINCÍPIO (v. 18)
· O PRIMOGÊNITO de entre os mortos (v. 18)
· Para em tudo ter a PRIMAZIA (v. 18)
Ora, se compararmos esses qualitativos usados por Paulo com o livro de Gênesis, descobriremos algo incrível. Moisés começa sua descrição das origens do mundo dizendo "No PRINCÍPIO". Bem, essa palavra, "princípio", no hebraico (que se lê Reshith) tem vários significados. Segundo o dicionário, ela vem da palavra Rosh e pode significar primogênito, anterior, primeiro, cabeça, princípio (que foi a tradução adotada para Gn 1:1) e primazia. Logo, o que será que Paulo estava querendo nos dizer ao relacionar todos esses possíveis significados com a pessoa de Cristo?
Antes de responder a essa pergunta, outro detalhe nos salta aos olhos. O hebraico dos tempos bíblicos era uma língua pobre com pouquíssimos vocábulos (menos de 9.000!!!). Logo, é comum (como no caso de Reshith) uma palavra ter vários significados, dependendo do contexto no qual ela aparecia. O mesmo se dá com as preposições. A preposição Be, por exemplo, pode significar "por, através, em, no". No caso do Gênesis temos: BeReshith que pode ser entendido como "no princípio", "pelo princípio", "em princípio" e até "para o princípio" (embora, a rigor, houvesse outra preposição mais apropriada para expressar esse último conceito).
Agora, vejamos o que Paulo fez no verso 15: "pois NELE [i.e. em Cristo] foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a Terra [compare com Gn 1:1 "NO princípio criou Deus os céus e a terra"], ... tudo foi criado POR MEIO dEle e PARA Ele".
Novamente perguntamos: Qual é o significado que Paulo quer imprimir aos seus leitores? A resposta é óbvia: Cristo é o "BeReshith" de Gênesis 1:1. Na sua leitura, o texto de Moisés pode corretamente ser entendido não apenas num sentido temporal, ("no começo"), mas também e principalmente, num sentido pessoal: "Através de uma pessoa chamada Princípio", "numa pessoa chamada princípio", "para uma pessoa chamada princípio" criou Deus o céu e a Terra.
Esta é uma clara indicação de divindade desse ser chamado Princípio, pois somente alguém com características de Deus pode criar a partir do nada e ser companheiro da Divindade no ato criador. Aliás, foi justamente esta a causa da revolta de Lúcifer: não poder participar da criação da Terra por não ser divino.
A terceira passagem de Miquéias 5:2 também é curiosa. Se lermos todo o capítulo 4 de Miquéias, entenderemos melhor o contexto da profecia. O profeta começa dizendo o que deveria ser o plano de Deus para Seu povo, caso fosse fiel. Ele retoma algumas promessas dadas em Isaías 2:1-5 (compare com Miquéias 4:1-5), anunciadas evidentemente antes do cativeiro babilônico e depois, subtendendo os 70 anos de exílio que ainda aguardavam o povo, ele salta para falar das promessas de restauração. Deus reunirá o Israel que será pela Assíria e por Babilônia (4:6, 7) e os reconduzirá a Jerusalém (4:8). Esta, porém, sofre com dores de parto, que o povo interpreta como desesperança (4:9-13). O profeta explica que não precisam se preocupar, pois aquelas dores de parto anunciam o nascimento do Rei-Messias que os livraria da ameaça de um novo cativeiro.
Mas, de Jerusalém (cognominada "a torre do rebanho"), o povo grita pedindo socorro possivelmente aos povoados vizinhos. O profeta ironiza a situação: "não há em ti rei? Pereceu o teu conselheiro?" Isso fez o povo se lembrar de quando, erroneamente, insistiram para que Deus lhes desse um rei, no caso Saul. Assim como foi naquela época, ocorre agora: Miquéias 5:1 mostra uma irônica resposta de Deus, uma cidadezinha desprezada – comparável à situação de Davi perante seus irmãos mais influentes – é a que trará à vida o Messias Salvador.
Talvez seja provável que os primeiros leitores de Miquéias, ou até mesmo o próprio vidente, tenham pensado na promessa feita a Davi e julgado que as origens desse Rei-Messias remontasse a esta promessa (1Sm 16:1). Este rei seria, então, aquele que Deus previra enviar ao Seu povo para enfrentar que ações como da Assíria e de Babilônia liquidassem Israel. Mas, seguindo a descrição de Isaías 9:5 (em que Ele é chamado "Pai da eternidade"), Miquéias retrocede Suas origens, descobrindo que elas são anteriores ao rei Davi, anteriores até mesmo à existência do mundo. São desde os dias da eternidade. Por isso Jesus, mostrando que não é o rei messias que depende de Davi e sim o contrário, lembrará: "Como Davi lhe chama de Senhor?" Mt 22:42-46. Jesus não é o filho de Davi, no sentido estrito, mesmo que este seja historicamente o seu ancestral.
O contexto imediato de Miquéias mostra que esta promessa é incondicional, Deus faria questão de cumprir sozinho, sem a ajuda humana. Logo, esse Rei-Messias não poderia ser outro senão o próprio Deus agindo pela salvação de Seu povo. Aliás, se voltarmos ao episódio em que o povo de Israel pede um rei, (episódio que, como vimos, está por trás do texto de Miquéias) vemos que ali, o problema era que o povo estava pedindo um monarca quando na verdade eles já tinham um: o Senhor Deus. Logo, seu pecado foi que, ao pedir um rei, estavam pedindo alguém para reinar não como representante de Deus mas no lugar dEle. Em Miquéias, o Senhor relembra ao povo que a ordem monárquica não deu muito certo, então, era a hora de lhes enviar o Rei que eles deveriam ter, de fato, e esse rei não era outro senão o próprio Deus. Por isso, seus dias são desde a eternidade! E não desde a ascensão do primeiro da linhagem, conforme seria em reis humanos.
É como se o reinado exclusivo de Deus sobre Israel fosse interrompido pelas dinastias que iniciam com Saul e Davi e terminam com Jeoaquim. Finalmente, Deus pode, então, voltar a reinar, cumprindo o que era antes de Saul subir ao trono. É por isso que o texto de Miquéias 5:2 diz: "de ti Me sairá o que há de reinar" e não "de ti sairá o que há de reinar". Noutras palavras, o rei Messias não é de origem belemita (Belém), mas de origem divina, por isso Suas origens, isto é Sua ascendência, procedem dos dias da eternidade, ou seja do tipo de existência que só compete a Deus possuir.
II – Seu testemunho e aparentes contradições
A lição mostra várias passagens do Novo Testamento que indicam que Jesus tinha plena consciência de que Ele preexistia antes de vir ao mundo. Mas alguém poderia objetar que os gregos seguidores de Platão também acreditavam numa existência pré-corporal de todas as criaturas vivas, especialmente o ser humano. Para eles, nossas almas ou espíritos viviam no mundo das idéias antes de nosso nascimento neste planeta. Logo, nossa geração no ventre materno era fruto não de um começo, mas de uma mudança de endereço do mundo ideal, para o mundo material. Crenças posteriores se basearam nesta filosofia para ensinar a reencarnação e a imortalidade da alma! Não estaria Jesus apenas endossando essas crenças? Se assim fosse, o fato de ter Ele dito que existia antes dessa vida "encarnada" não faria dEle Deus, mas apenas um dentre "todos os humanos" que também foram enviados desde o plano astral até esse corpo carnal que, nessa visão, seriam os grilhões que aprisionam a alma. Existem três evidências bíblicas que desmentem essa idéia defendida por alguns autores espíritas e liberais. Em primeiro lugar, notamos que Jesus disse "antes que Abraão EXISTISSE (ou NASCESSE), Eu sou" (João 8:58). Se o Mestre estivesse endossando o pensamento platônico, ele deveria dizer: "antes que Abraão nascesse, nós (Ele, Abraão e todos os humanos) já existíamos [subtendendo-se, ‘no mundo das idéias’]". Mas note que ele usa uma exclusividade para si: "Eu sou". Curioso que Ele também não disse "Eu já existia" ou "eu era" e sim "eu sou" o que indica não um "começo" antes dos tempos, mas uma existência "atemporal", isto é, sem marcas de começo e término. Uma existência vivida no tempo próprio de Deus e de nenhum outro ser em todo o Universo.
Em segundo lugar, é notório que Sócrates, o professor de Platão e para muitos o mentor da maioria de suas idéias, cria no mundo superior de onde sua alma havia supostamente saído para se encarnar neste corpo. Com isso em mente, ele tem uma reação otimista em relação à morte pois sabe que esta representará o fim de sua prisão corporal. Ora, se Cristo – lúcido como era – acreditasse da mesma maneira de Sócrates, era de se esperar o mesmo comportamento. Contudo, a reação do Mestre diante da morte foi de repulsa – Ele não queria morrer!
Este último argumento em especial nos lança para outro problema. Ele resolve a questão da equiparação errônea entre Cristo e Platão, mas cria outra problemática. Se Jesus era Deus, por que tanto temor? Isso fica fácil de entender, se compreendermos que a encarnação do Filho do homem exigiu não que Ele perdesse Seus atributos divinos, mas que os conservasse suspensos, senão jamais poderia ser realmente humano e vencer o pecado como Adão poderia ter vencido. Só para lembrar: estava entre os laudos acusatórios de Satanás contra Deus a idéia de que Adão pecou porque a lei era pesada demais para ele cumprir! Logo, Cristo deveria vir na condição de Adão para provar que fora possível a este ter sido fiel. Mas Ele também veio com um corpo debilitado por quatro mil anos de pecado para mostrar que mesmo nós (evidentemente numa esfera diferente da de Adão), também podemos ser fiéis (neste caso, amparados por Sua graça). Noutras palavras, Adão tinha forças suficientes para resistir, pois nascera sem pecado – não precisava da graça – embora fosse "criaturalmente" dependente de Deus. Mas nós já nascemos em pecado e não temos a mesma vitalidade de nosso ancestral! Logo, munidos da graça, também podemos ser vencedores, como ele poderia ter sido e não foi (embora, com seu arrependimento, é claro que ele também alcançará a vitória final!).
Até aqui, tudo bem. Mas o problema é que, mesmo antes da encarnação, a Bíblia chama a Cristo de "Filho de Deus" e "unigênito". Certa vez, alguém procurou argumentar comigo: "Ora se tenho um filho, é óbvio que ele deve ter surgido depois de mim. É a lei da natureza! De idêntico modo, se Cristo é o Filho de Deus, é lógico que Ele surgiu depois de Deus!" Ora, se for assim (equiparar demasiadamente as "leis da natureza" às pessoas da Divindade, então sou obrigado a admitir que Cristo também teria uma mãe. Afinal, não existe filho só de Pai. Logo, quem seria a mãe de Cristo? Maria? Foi curioso notar a decepção deste irmão antitrinitariano com seu próprio raciocínio. Ele prometeu pensar no assunto, mas não voltou para apresentar uma solução ao seu próprio dilema.
A filiação de Cristo é diferente da nossa e não é literal no sentido de que Ele descende de Deus assim como nós descendemos de nosso pai e, não podemos esquecer, nossa mãe!
Dizer que Cristo é "o Filho de Deus" é dizer que Ele é de origem divina. A prova maior disto está em João 5:18, onde o ódio dos judeus foi incitado pela auto-definição de Cristo como "Filho de Deus" – que fazia dEle um igual a Deus! Mas alguém poderia argumentar que os anjos e até os homens são, em algumas passagens da Bíblia, chamados de "filhos de Deus" (ex. Gn 6:1-4; Jó 1:6; Jo 1:12-13; Rm 8:14). Isso não igualaria a filiação de Cristo à nossa, tornando-O tão "criatural" quanto nós mesmos? Sobre isso devemos lembrar três coisas. Na Bíblia, jamais a expressão Filho de Deus é aplicada no singular para alguém senão Cristo! Sempre está no plural, o que mostra a singularidade da filiação de Cristo. Segundo: Jesus jamais disse "nosso Pai" (Salvo na oração do Pai Nosso que era um modelo). Antes, Ele sempre dizia: "Meu Pai e vosso Pai" (Jo 20, 16), outra evidência de singularidade. E, por último, Ele não é apenas chamado de "Filho de Deus", mas "Filho UNIGÊNITO de Deus", o que estabelece uma enorme singularidade em relação aos demais "filhos de Deus".
Ocorre que a palavra "unigênito" (único gerado) não é uma boa tradução do original grego. Na verdade é um erro da Bíblia Latina. A palavra original MONOGENES significa "único da espécie". Assim, o texto de João 3:16, por exemplo, deveria ser vertido assim em português: "Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho ÚNICO (não "unigênito") para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna".
III – O testemunho de Seus discípulos (Novo Testamento)
Os discípulos de Cristo eram judeus no sentido mais exato da palavra. Como poderiam, então, conceber a idéia de um Messias divino? Essa é uma pergunta que tem tirado o sono de muita gente. Aliás, tanto críticos do Novo Testamento, quanto religiosos que não aceitam a divindade de Jesus Cristo argumentam que toda e qualquer crença num Messias divino é fruto de uma teologia posterior (principalmente constantiniana e medieval), nada tendo com os primeiros seguidores do Mestre que, como judeus, jamais admitiriam tal coisa.
Na opinião de Bultmann, um dos mais influentes teólogos liberais da Alemanha, a origem divina de Jesus não era conhecida pelos discípulos. Ela foi criada posteriormente pela igreja helenística. "Ela foi inicialmente introduzida na transformação para o helenismo, no qual a idéia de um rei ou herói gerado por uma divindade em uma virgem era muito disseminada" (History of Synoptic Tradition, 291).
Contudo, alguns documentos judaicos descobertos nas grutas de Qumran, no Mar Morto e datados de aproximadamente 30 anos antes de Cristo, revelam que no judaísmo da época havia, sim, uma idéia de divindade messiânica perfeitamente presente na compreensão do povo. Um hino intitulado "Filho de Deus" catalogado sob a sigla 4Q246 fala de um homem chamado "Filho de Deus e filho do Altíssimo", que seria "grande sobre a Terra". Ora, essa é a mesma linguagem que o anjo em Lucas usa para saudar Maria.
É curioso que, por essa mesma época, Augusto César havia dado a si mesmo o título de "divi filius", "filho de Deus" e ele claramente se dizia divino. Ora, duas observações se fazem necessárias aqui: "Os apóstolos viveram no período romano e sabiam que a expressão "filho de Deus" (divi filius) indicava – desde aquela época – um ser divino. Por que, então, a empregariam se queriam dar um sentido diferente do original? Usar uma expressão tão conhecida para significar outra coisa é complicar o que se está escrevendo. Logo, caso não entendessem a Jesus como divino, o mais natural seria dispensarem essa expressão substituindo-a por outra. Portanto, a presença dela nos escritos do Novo Testamento, demonstra que os apóstolos não viam problema com ela, nem com seu significado. Para eles, Jesus era o Filho de Deus; portanto, divino.
Outra coisa que nos chama a atenção nesta fonte é o fato de que, para diferenciar de Augusto, o texto não se limita a chamar o Messias de "Filho de Deus", mas de "Filho de Deus E DO ALTÍSSIMO".
Com esse texto em mente, fica fácil entender por que Tomé chamou Jesus de "Meu Senhor e meu Deus" (Jo 20:28)!
Existe um grande debate acerca do uso dos chamados "nomina sacra" ou nomes sagrados, em latim. É que os judeus no passado, demonstrando seu grande respeito pelo nome de Deus, costumavam escrevê-lo de forma diferente nos textos bíblicos. Tenho, por exemplo, a foto de um antigo manuscrito grego em que o nome de Deus (JHVH) é grafado não com letras gregas, mas com letras hebraicas antigas, para acentuar a diferença. Acontece que em alguns manuscritos cristãos a palavra senhor quando aplicada a mestres humanos é escrita por extenso, mas quando aplicada a Deus, (O SENHOR) ela é sublinhada e abreviada (SR). Senhor, lembramos, seria KYRIOS em grego e, portanto, escrita na forma KS quando está se referindo ao Senhor Deus. O grande debate é saber, ao certo, quando esse uso começou e se era apenas uma abreviação comum (como costumamos usar) ou um sinal claro de referência pelo nome (daí o título nomina sacra!). Seja como for, existe um argumento indireto e possível (mas não conclusivo) acerca da divindade de Jesus quando vemos que os primeiros manuscritos cristãos também se referiam a Jesus através de nomina sacra. Quando o "Senhor" se aplicava a Jesus, usava-se a mesma abreviação usada para a aplicação a JHVH. E até Seu nome próprio (IESOUS XRISTOS) virava IS, XS. Em manuscritos mais tardios, nomes como de Céu, Jerusalém, Mãe e outros também passaram a ser abreviados.
Não é, como dissemos, um argumento conclusivo, mas revela um interessante comportamento dos primeiros copistas cristãos ao usarem o nome de Jesus e referirem à Sua pessoa de um modo, possivelmente, reverente, como se estivessem falando acerca do divino Deus.
Rodrigo P. Silva
O Dr.
Rodrigo P. Silva é professor de Teologia do SALT
Unasp Campus II.
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