
A Experiência do discipulado


16 a 23/02/2008
Quantas palavras, quantas explicações, quanto esforço para explicar coisas espirituais... Quantos exemplos para descrever realidades superiores, invisíveis, impalpáveis, no entanto, tão reais!!!
Ser discípulo é uma experiência. É algo que você vive.
Vou fazer umas comparações que parecem absurdas, mas servem para descrever uma experiência.
Há alguns anos, fui com alguns alunos para o Playcenter em São Paulo. Com todo respeito devido a um professor e pastor, eles me perguntaram se eu queria ir naquela montanha-russa de três loopings... Eu lhes disse: "Nem cem cavalos me arrastam para essa montanha russa!" Achei que, com essa declaração retumbante, eu havia me livrado desta "experiência". Não gosto de sentir os efeitos da adrenalina produzida pelo corpo em situações como esta. Gosto de ter meus pés no chão e manter meu equilíbrio.
Mais tarde, toda esta certeza deveria mudar. Dez alunos me rodearam, me seguraram e, por brincadeira, conduziram-me "gentilmente" até o portão de entrada daquela montanha-russa. Percebi que eu poderia usar minha autoridade pastoral e ordenar. "Soltem-me agora, já!" Mas também percebi que eu perderia diante deles a autoridade que eles apreciam. Deixei-me levar para dentro de um daqueles trenzinhos. Sentindo-se vitoriosos, rodearam-me tirando fotos das minhas caretas ao longo do percurso.
Aquilo foi uma experiência!! Eu poderia filosofar sobre montanha-russa, poderia conhecer e descrever todos os detalhes técnicos, poderia fotografá-la ou até fazer uma maquete dela, isto tudo poderia me auxiliar, mas ainda não seria a experiência propriamente dita. Apenas ser arrastado pelas guinadas violentas, ver o mundo de cabeça para baixo, sentir em meu rosto o vento da velocidade, apenas isto pode ser chamado de experiência. O mesmo se pode dizer de andar a cavalo, nadar, pular de pára-quedas...
Posso e devo conhecer Jesus na Bíblia, mas expor-me a situações em que eu possa experimentá-lo é o que é necessário para o verdadeiro discípulo.
O diabo quis deturpar esta experiência, quando ele tentou Jesus. "Pula...!" dizia ele... (cf Mt 4:5-6). Se Jesus o tivesse feito, não seria mais do que presunção e colocar-se num relacionamento esquisito, que Deus nunca intentou para nós. Quando falo de expor-se a situações onde posso experimentar a Jesus, não é nada mais nada menos do que o que ocorreu com os seus discípulos. Eles O seguiram. Deixaram para trás aquilo que os poderia atrapalhar neste intento de descobrir a divindade e O seguiram.
Fico imaginando Pedro continuando a pescar até o resto de sua vida. Como teria sido sua vida? Talvez tivesse sido um homem honrado, que se dedicasse a sua família. E daí? Ele não teria sido amargamente decepcionado pela experiência dolorosa de ser confrontado com os abismos de suas próprias contradições, quando negou a Cristo, não teria sido confrontado com o Olhar de Jesus à beira do mar, mas também nunca teria ouvido as palavras, "amas-Me?" Ele nunca teria sido crucificado de cabeça para baixo (como nos conta a tradição), mas também não teria vivido uma vida intensa, cheia de experiências com o Senhor em vida, nem depois com o Senhor ressuscitado, já ausente fisicamente.
O Pão da Vida
Quando Jesus quis explicar este assunto aos fariseus, comparou-se com o Maná que havia sido dado ao povo no deserto. Com este assunto eles estavam familiarizados. Mas quando Jesus falou que Ele era o pão que veio do céu (Jo 6:50), veja como Ellen White comenta esta passagem:
"Então os rabinos exclamaram, irados: ‘Como nos pode dar Este a Sua carne a comer?’ Fingiram compreender-Lhe as palavras no mesmo sentido literal que lhes dera Nicodemos quando perguntara: ‘Como pode um homem nascer, sendo velho?’ (Jo 3:4). Compreendiam, até certo ponto, o que Jesus queria dizer, mas não estavam dispostos a reconhecê-Lo. Torcendo-Lhe as palavras, esperavam indispor o povo contra Ele. Cristo não suavizou Sua simbólica representação. Reiterou a verdade em linguagem ainda mais vigorosa: ‘Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia. Porque a Minha carne verdadeiramente é comida, e o Meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim e Eu nele’" (DTN, 389). O restante desta citação está na lição.
Parece que precisamos experimentar a carne e o sangue de Jesus como alimento vivificante de nossa vida espiritual. Uma experiência que não exclui a Palavra, pelo contrário, nos torna um com ela. Esta experiência pessoal passa a ser um complemento vivo da Palavra. É quando a Palavra se torna carne (Jo 1:14). Participamos, numa fração ínfima da própria natureza de Cristo, quando a Palavra se torna em vida vivida, experimentada com Cristo.
Somos o povo do manual. Temos manuais para tudo. Temos regras e leis para tudo. Somos o povo da segurança. Sempre queremos ir seguros, proteger-nos. Basicamente, esta atitude não está errada, e não há nada errado com manuais que nos facilitem os procedimentos e nos veiculem o pensamento da sabedoria acumulada que irmãos de todas as partes do mundo adquiriram em conselho mútuo.
Mas se esta segurança nos roubar a audácia de ousar andar pela fé, de fazer coisas pela fé, de nos atirar em projetos, que em convicção adquirida em jejum e oração, o Senhor nos pediu inequivocamente, então estamos nos limiares do farisaísmo moderno.
O que você acha desta citação da mais pura e verdadeira experiência com Deus, recomendada por Sua mensageira para o nosso tempo? "Todos quantos se acham sob as instruções de Deus precisam da hora tranqüila para comunhão com o próprio coração, com a natureza e com Deus. Neles se deve revelar uma vida não em harmonia com o mundo, seus costumes e práticas; é-lhes necessário experiência pessoal em obter o conhecimento da vontade de Deus. Devemos, individualmente, ouvi-Lo falar ao coração. Quando todas as outras vozes silenciam e, em sossego, esperamos diante dEle, o silêncio da mente torna mais distinta a voz de Deus. Ele nos manda: ‘Aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus’ (Sl 46:10). Este é o preparo eficaz para todo trabalho feito para o Senhor. Entre o vaivém da multidão e a tensão das intensas atividades da vida, aquele que é assim refrigerado será circundado de uma atmosfera de luz e de paz. Receberá nova dotação de resistência física e mental. Sua vida exalará uma fragrância e revelará um poder divino que tocarão o coração dos homens." (CBV, 58. Grifo nosso)
Você já ouviu a voz de Deus? Você já foi dirigido (a) por ela em algum momento de necessidade ou serviço?
Paulo ouviu a voz de Deus (não em revelação profética em orientação em seu ministério) e mudou o rumo de viagens e empreendeu coisas que ele mesmo reconheceu eram loucura aos olhos de homens. Noé construiu uma arca no seco, numa época em que não chovia, porque ouviu a voz de Deus. Abraão ouviu a voz de Deus lhe pedindo para ir a uma terra que Ele ainda iria mostrar no futuro, e ele foi.
Espero que nossa experiência não desemboque ali onde Jesus já havia repreendido homens que trilharam os mesmos passos que estamos trilhando hoje: "Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo..." (At 7:51).
As crianças e o discipulado
Gosto de pensar nesta afirmação de Jesus: "Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos Céus" (Mt 18:3) comparando a atitude dos adultos com a das crianças. Em três áreas quero comparar os dois grupos: a) diante da repreensão, b) diante da dor, c) diante da alegria.
a) Via de regra quando um adulto é repreendido, geralmente ainda está lutando com a dor e a culpa da transgressão e não permitem que ninguém entre em sua vida deste momento. Envergonhados, fecham o coração e rejeitam a repreensão e correção. Feridos, procuram achar saídas solitárias que muitas vezes levam a decisões ainda piores. As crianças, por sua vez, choram; na verdade, também não gostam da correção, mas querem acertar. Depois de algum tempo ou, muitas vezes, na mesma hora, ainda em lágrimas, já conseguem concordar em melhorar o seu comportamento. Abrem o coração e não querem arriscar magoar o pai ou a mãe.
b) Quando adultos se machucam em seus relacionamentos, com pecados ou perdas que sofrem, tendem a esconder as lágrimas e crêem poder resolver o problema sozinhos. Cultivam o sentimento de dor, perda e solidão. As crianças, por sua vez, correm para os pais e buscam consolo, crendo que não podem resolver sozinhas. Sentam no colo deles até terem energias suficientes para continuar a vida.
c) Um adulto que experimenta motivos de alegria, se ele não guardar para si mesmo com medo de cair no ridículo, organiza a expressão de alegria de tal maneira que ela perde toda a espontaneidade. Crianças a compartilham sem medo, pulando e expressando-a em toda plenitude e espontaneidade momentânea.
É interessante que uma criança se expressa assim tão diferente do que um adulto, ela parece expressar sentimentos e confiança com uma humildade que, parece, vamos perdendo ao longo da vida.
A Transfiguração e o fracasso
A cada discípulo, Deus dá experiências diferentes. Este é o bonito do colorido que a variedade de experiências vividas com Deus traz à comunidade de fé quando, junta, conta as maravilhas vividas.
Pelo fato de determinadas experiências terem sido muitas vezes contadas e enfatizadas de púlpito, muitos pensam que a sua experiência com Deus apenas é genuína se for como aquelas que tantas vezes ouviu. A ênfase de bons contadores de histórias recai sobre o aspecto mágico e sobrenatural da experiência de alguém.
Infelizmente, nos medimos com aquele tipo de experiência marcante, sobrenatural, na qual Deus agiu de maneira extraordinária, e colocamos aquela como a experiência padrão, não aceitando nenhuma que seja abaixo destas relatadas.
Esta expectativa exagerada gera frustrações exageradas. E esta expectativa está construída em cima de um entendimento uniforme da experiência cristã. Não existe uniformidade na experiência com Deus. Eu sequer experimentei duas vezes a mesma experiência em minha vida.
Leia as histórias da Bíblia... Foi a experiência de Davi diante de Golias a mesma de Moisés? A de Abraão a mesma de Pedro?
Quando lemos o relato daqueles discípulos no monte da transfiguração, vemos o contraste entre a glória em cima do monte envolvendo aqueles que subiram na própria atmosfera celestial, enquanto, embaixo do morro, o fracasso tomando conta da experiência de outros discípulos.
Cada um é guiado por Deus através de experiências de uma maneira tal que uma fórmula se cumpra. Estaremos passando pelas experiências que unam o maior aprendizado para nós e nossa presença como sendo a maior bênção.
Há algumas pessoas enciumadas e com inveja por não terem aquele cargo ou aquela posição ou aquele ministério. Você está onde vai aprender mais e ensinar mais.
O discurso no Monte das Oliveiras
Na verdade, neste sermão, Jesus coloca a mão em nosso queixo e nos levanta a cabeça para O olhar um pouco mais além das circunstâncias corriqueiras.
Ele nos estimula a olhar além das camas de hospital e dos túmulos dos cemitérios. Ele quer que olhemos além das perdas e também das alegrias do dia-a-dia. Ele quer que fixemos os olhos no Salvador vindouro. Jesus não estava pregando sobre o fim do mundo, tampouco deveríamos nós fazê-lo. Jesus estava pregando sobre o encontro maravilhoso que quer ter com os Seus filhos quando o presente estado de coisas não tiver mais como se sustentar. Jesus quer que ergamos os olhos e enxerguemos a Ele, que vai ser a solução definitiva para a dor e sofrimento, para a morte, para a injustiça e a falta de amor.
Para que fiquemos de queixo erguido, com coragem, e sem medo, Jesus nos dá advertências daquilo que vem pela frente. Isto é liderança espiritual. O líder sabe o que vai ocorrer e prepara todos para que encarem as experiências por vir com certeza e confiança.
Levando a cruz
Quando Jesus perguntou aos discípulos quem os outros (aqueles que não eram os Seus seguidores) pensavam que Ele era, e depois quem eles pensavam que Jesus era, ele queria confrontá-los com o fato de que as pessoas gostam de fazer "Jesuses" para si conforme o seu próprio gosto. Seguir um Jesus de feitio caseiro, como diriam os hispânicos: hecho a mano, é muito fácil. Crio as idéias, dou ênfases naquilo que me interessa e me chamo de cristão.
Muitos dizem que existem muitas religiões cristãs pelo fato de cada um ver uma parte da verdade e todos juntos reconhecemos o todo... Bem ecumênico, não é? Creio honestamente que existem tantas facções entre os cristãos pelo fato de que, como seres humanos, escolhemos aquilo que mais nos chama a atenção e mais nos empolga. Alguns vão ao ponto de apenas ressaltar aquilo que lhes interessa, sendo deliberadamente seletivos.
Estimulo cada irmão e cada irmã que está lendo este comentário que se empenhe para conhecer Deus em toda a sua revelação. Domine o quanto você puder o "assim diz o Senhor" e não permita que nenhuma experiência, por mais marcante que seja, o tire destas verdades. Não faça um Jesus à machadinha para você se deliciar.
Há um momento em que Jesus vai naquilo que realmente interessa: Quem quer ser Meu discípulo precisa passar pela cruz. Não apenas para dar um "oi" e seguir caminho antes que ela me tire o sossego. Não! Ali diz: "Então disse Jesus aos Seus discípulos: Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-Me..." (Mt 16:24). Aquele que segue dizendo que quem tem dó de sua vida, tem medo daquilo que possa acontecer se fizer uma entrega completa, este não é digno dEle.
Apenas posso crer que a proposta de Jesus é mais completa, mais integral, envolve muito mais do que ir uma ou duas vezes por semana para a igreja e cumprir com alguns requisitos em casa... É todo o coração (Jr 29:13); é você completamente (Mc 12:30 e 31). Corpo, mente, sentimentos, pertences, planos, pessoas queridas, Ele quer tudo, para abençoar tudo e desafiar tudo para constante crescimento.
Dr. Berdnt Wolter
Professor de Missiologia no SALT-Unasp Campus 2
E-mail: berndt.wolter@unasp.edu.br
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